Rockastru´s 2009 - Resumo Final 2009-12-00 Rockastru´s 2009 - Resumo Final Extras 28-06-2009 Permita-me o prezado leitor que comece esta introdução com um pedido de desculpas, precisamente pelo anacronismo em que este texto surge – praticamente uma semana volvida após o evento a que se refere. Tal deve-se ao facto de o tempo ser coisa escassa por estes lados. Como diz o povo, “mais vale tarde do que nunca” e, mesmo correndo o risco de chegar tarde de mais a alguns potenciais leitores, aqui fica então o meu retrato do que vi e ouvi nessa longa noite de 20 para 21 de Junho, decorria o ano de 2009, nesse local mítico que hoje em dia já é o Kastru's Bar, em Forjães. Afinal... não é todos os dias que tem lugar a final do Rockastru's - quando muito, uma vez por ano. Como é sabido, este ano o concurso assumiu moldes diferentes, com quatro eliminatórias (menos uma que nas edições anteriores), duas meias-finais e agora esta final. Assim, os frequentadores habituais já conheciam bem as bandas e a empatia acabou por ser mais fácil. A navegação estava previamente avisada de que, nesta data, as coisas começariam bem mais cedo (sempre eram seis bandas em palco) e por isso mesmo, a casa começou a encher ainda a noite era uma moça vistosa e roliça. E desde logo, uma diferença significativa relativamente à edição do ano passado: as tribos - nesta caso, a ausência delas. No ano passado, talvez fruto da proximidade de algumas bandas, essas tribos eram mais numerosas e visíveis. O pessoal das tribos, salvo algumas excepções, está ali qual claque de futebol, para ver e apoiar a “sua” banda e ignorar as outras. Serão todos da opinião que a sua banda foi a melhor, qualquer que seja o desenlace. Se a banda ganhar, foi merecido (mesmo que o golo tenha sido marcado com a mão); se não ganhar, então o júri é uma caterva de incompetentes e panhonhas que não percebe nada de música. De uma coisa não têm dúvidas: a sua banda foi mesmo a melhor das bandas que viram com atenção. E sublinhe-se a “atenção” a que este vosso escriba se refere: a intrínseca filosofia tribal é para ver virtudes e ignorar defeitos na banda que apoiam e fazer precisamente o oposto nas bandas concorrentes. (…) Assim sendo, ainda Sábado era Sábado e a final do Rockastru's era oficialmente atirada às feras. Como habitualmente, cabe à banda vencedora do ano anterior a tarefa de “abrir a pista” ao resto da noite. Os barcelenses GoDoG cumpriram de forma brilhante essa tarefa de começar a aquecer um público mentalizado para uma noite longa, plena de energia e emoção e, por isso, precavido para o facto de não gastar todas as munições nos primeiros instantes. Os GoDoG estão em fase de gravação do seu primeiro álbum (fruto da vitória em 2008) e, talvez por isso, o concerto tenha sido uma espécie de desfile de alguns temas que figurarão na estreia. A banda parece um relógio de alta precisão, onde cada peça encaixa na perfeição. E fazem-no com um à vontade tal que não é difícil adivinhar que as coisas estão adiantadas em fase de estúdio e concepção do trabalho. E aqui, fica registada uma característica comum às bandas de metal mais tecnicista e melódico, como é o caso destes barcelenses: a banda parece descartar o ambiente caótico em detrimento da competência e virtuosismo (salvo as devidas proporções). Habituados a concertos grandes e pequenos e a vitórias em concursos (Rockastru's e Rock Rendez Worten), os GoDoG parecem agora afinados e preparados para a árdua tarefa que se segue: editar o álbum (em 2010) e subir um degrau na cena metálica nacional. Com um wild card na mão: a banda pratica um som bem capaz de cativar muitos seguidores fora dos cânones do metal, como se pôde verificar no Sábado. O público parece agora mais informado sobre a banda ao ponto de reagir da mesma forma aos temas originais e à alucinante versão de “Vaca de Fogo” (Madredeus) que se tornou numa espécie de chave mestra dos concertos dos GoDoG. Falta agora encontrar o equilíbrio entre essa chave mestra e um eventual estigma em que esse tema se pode vir a transformar. Mas, pelo concerto desta noite, parece não haver dúvidas que a banda está com os pés bem assentes no chão. O concerto foi curto, mas a noite seria longa. Os GoDoG continuam com a formação base de duas guitarras, secção rítmica de baixo e bateria e, na ausência de voz, é o violino da Bárbara que assume esse lugar vago, revestindo o metal de tendências progressivas de uma carga emotiva. Aguardemos... Poucos minutos volvidos sobre a actuação dos GoDoG, já toda a imensa parafernália dos Katharsis estava pronta em palco para receber os sete músicos de Oeiras. Uma nota importante para os técnicos e equipa de palco: as trocas de backline foram rápidas e eficientes, o que permitiu manter o ritmo e espírito festivo sempre presentes, não deixando a letargia causada pelas demoras transformar-se em cansaço e desmotivando os presentes na sala. Desta forma, o ritmo esteve sempre elevado, mesmo nas pausas. Os sete Katharsis não se ficam pelo número: vão mais longe, pois alguns músicos dominam mais do que um ou dois instrumentos, revestindo o som dos Katharsis de um ecletismo que constituiu a diferença na bitola rock de toda a noite. Os Katharsis tocam música do mundo, mas também têm características rock em algumas partes. O resto, é som da América (com “Mary Sue”, por exemplo), a componente australiana (intro com didgeridoo) e árabe/flamenca em “Arabeska” e muita coisa dos balcãs. Vão a todas, são um grupo extremamente multifacetado, excelentes músicos, com um enorme à vontade e boa disposição em palco. A espaços fazem lembrar os vizinhos Kumpania Algazarra. Por serem tantos e terem tanta coisa em palco, a festa transborda para fora e o público reage com... festa. Os Katharsis são festa, acima de tudo. Não repetiram sets ao longo da meia-final e final e apresentaram sempre pelo menos um tema novo. Só faltava transformarem-se numa tuna e fizeram-no também, com a componente sarcástica à mistura. No final, foram consagrados como grandes vencedores deste Rockastru's 2009 e levaram ainda para Oeiras os prémios de Originalidade/Criatividade, Presença em Palco, Simpatia e Público. Acabaram por beneficiar da crescente popularidade que a chamada música do mundo tem conquistado junto do público nacional e sagraram-se vencedores desta edição. Mas isso foi uma coisa que só se soube no fim da noite. Quando os Katharsis abandonaram o palco, já os habituais retardatários marcavam presença na sala, lotando uma vez mais o Kastru's Bar. Seguiram-se os portuenses Qing Of Qong que, sem grandes alaridos conquistaram o acesso à final mercê de dois concertos competentes e seguros, apoiados por uma boa qualidade técnica dos seus elementos. Na final, a receita voltou a ser um concerto de rock'n'roll sem tréguas nem hesitações. Os Qing Of Qong cortam o rock a festo sem precisar de ceder a correntes ou a modas. O som é rock e ponto final, sem ser demasiado linear. Os temas são muito bem compostos, servidos por uma densa secção rítmica, duas guitarras desenfreadas e um vocalista extremamente competente. Aliás, o vocalista Rui Marques levou para o Porto e prémio de melhor vocalista e a banda arrecadou ainda o prémio de Melhor Cover/Versão com o arriscado "L.A. Woman" dos The Doors. E a verdade é apenas uma: não é qualquer banda que pega num clássico destes e o interpreta três vezes num concurso conseguindo ainda o prémio na categoria. Não hesitaram ainda em mudar os sets na meia-final e na própria final, o que leva a supor que se trata de mais uma banda com muito mais para dar do que apenas os cinco temas exigidos. Curioso ainda verificar que foram a única banda a concurso que não fez uso de uma indumentária própria para o concerto. A pausa voltou a ser curta até subirem ao palco os Wokini, de Guimarães. A banda parece ter assumido uma postura ligeiramente diferente nesta final. Desde logo porque a indumentária era especial, inspirada na Era Medieval. Afinal, foi na Baixa Idade Média que Portugal foi fundado, precisamente por terras de onde são originários estes Wokini. Mas não foi só na roupa que a banda encarou esta final com uma postura diferente. Também o set foi diferente (como já havia sido na meia-final), o que faz igualmente adivinhar que a banda dispõe de muito mais material do que aquele que lhe é exigido a concurso - e a verdade é que eles já estão a trabalhar num álbum de estreia. O rock progressivo dos Wokini, pesado e multifacetado com constantes mudanças de marcação, é abrilhantado pelo à vontade que a vocalista Patrícia tem em palco - e nesta final a voz pareceu bem mais segura do que na meia-final onde, em certas alturas, soou algo estridente. A voz da Patrícia, voluntária ou involuntariamente, assume ainda uma característica soul em alguns temas. Os Wokini levaram para o berço da Nação o prémio de Melhor Guitarrista, através do Giliano. Na verdade, os Wokini são apenas quatro, sendo que a vocalista assume apenas esse papel, ficando os outros três elementos com a tarefa de acrescentar a banda sonora. Por criar uma verdadeira parede sonora na guitarra ou aplicar a melodia exigida a uma banda progressiva, o Giliano levou o prémio para casa. Muito interessante verificar que "Roadhouse Blues" dos The Doors foi o tema escolhido para a cover. Ou seja, a banda de Jim Morrison inspirou duas bandas jovens nesta noite. A mim, há 20 anos, chamavam-me velho por ouvir os Doors. O concurso ainda tinha uma banda para fechar. Do bairro de Chelas, em Lisboa, os Suprah traziam exactamente o mesmo set da eliminatória e meia-final. Afinal, foi essa fórmula que os fez conquistar a presença na final e a preferência de uma certa fatia do público do Kastru's Bar, muito dada a ritmos alucinantes servidos em doses elevadas de décibeis. Os Suprah não se pouparam nesse aspecto. São apenas voz, guitarra, baixo e bateria, mas a sonoridade até pode muito bem ser herdeira do punk, como muitas bandas da Alemanha ou Suíça, que utilizam a tecnologia. Neste caso, a formação dos Suprah é clássica, mas o ambiente tem algo de electro-industrial em termos estéticos, se bem que a banda seja assumidamente rock, garage e new wave. E não fazem mesmo cerimónia nenhuma em esticar a sonoridade até às fronteiras do metal, em jeito de provocação sonora. Cientes dos efeitos que provocam, não hesitaram em abrir com "Abduction" e em colocar o contagiante "Dancing Days" a encerrar o espectáculo, semeando o caos pela sala, numa roda de mosh que alastrou como um tornado. Não fazem uso de um grande virtuosismo, mas antes pautam o som por uma marcação constante que nos acelera o batimento cardíaco. Não admira pois que a secção rítmica tenha arrecadado os prémios para Melhor Baixista e Melhor Baterista. Houvesse um prémio para melhor guitarrista ritmo e talvez os Suprah o levassem para Lisboa... Agora era tempo de fazer contas, recolher as votações do público e dos elementos do júri, e assistir ao concerto dos Born A Lion, já a noite era uma mulher feita. E esta metáfora remete-nos para o ambiente pecaminoso inspirado no mito do cantor e guitarrista de blues de nome Robert Johnson, de quem se diz ter vendido a alma ao diabo em troca da destreza para tocar guitarra. A transacção terá tido lugar na encruzilhada das estradas 61 e 49 em Clarksdale, no Mississippi. A verdade é que um dos temas de Robert Johnson, de nome “Crossroads Blues” tem alimentado o mito e enriquecido o ambiente místico em redor do tema. Pois, nem de propósito: “Bluezebu” é o título do mais recente álbum dos Born A Lion, trio da Marinha Grande formado por Nuñez, Melquiadez e Rodriguez. Foi neste mais recente registo que os Born A Lion basearam a sua actuação, numa enorme descarga de rock'n'roll, blues e magia. A banda, sobretudo depois da digressão de 2007 pelo Brasil, inspirou-se em toda a magia mística do rock'n'roll para fazer um álbum insuflado de veneno – do bom. Os Born A Lion soam agora imenso à “Santíssima Trindade” alicerce de todo o rock pesado posterior (Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple), aliam-no ao ambiente psicadélico e ao “pecado” dos blues e o resultado é um disco para se ouvir às 3:30 da manhã sem receios de acordar os espíritos. “Bluezebu” é um exorcismo que os Born A Lion puseram em palco, pondo fogo à assistência e consumindo os últimos resquícios de combustível. Desde o concerto de Anti-Clockwise que tal sentimento não me assolava na sala de Forjães. Os Born A Lion deram um concerto incrível, mágico, contagiante. Seguiu-se a entrega de prémios até culminar no anúncio da banda vencedora, pela voz do homem que há 13 anos tem levado a cabo esta tarefa: Natanael Castro, gerente e proprietário do Kastru's Bar. A noite terminava em festa, como sempre fora na sua curta vida. Afinal, era a noite mais curta do ano e o Rockastru's espremeu-a até ao limite. Lá para os lados do Mediterrâneo, o Sol começava a assumir a sua autoridade e a escacar em mil pedaços uma noite que, minutos mais tarde, acabaria por, também em Forjães, desaparecer como uma bola de sabão. O Sol pode muito bem ter dado cabo da noite e reclamado uma vitória anunciada, mas o Tempo, esse vai ter uma tarefa árdua para apagar da memória uma noite inesquecível. Já a noite havia sido escorraçada do meridiano de Greenwich e ainda ecoavam na cabeça os sons debitados pelos Born A Lion. O rock é como as gravuras rupestres: uma vez cravado na memória, não se apaga. Se a Humanidade acabasse hoje, daqui a mil anos a única coisa que subsistiria na Terra como legado nosso seria mesmo A Muralha da China, as Pirâmides do Egipto ou as gravuras rupestres. E, ou me engano muito, ou o rock ainda por cá andaria a ecoar nos espíritos que sobreviveram, prontinhos a fazer transacções, mesmo que as encruzilhadas não existissem mais.